Português (Prof. Ritamar)


Viver em Sociedade

            A sociedade humana é um conjunto de pessoas ligadas pela necessidade de se ajudarem umas às outras, a fim de que possam garantir a continuidade da vida e satisfazer seus interesses e desejos.
            Sem vida em sociedade, as pessoas não conseguiriam sobreviver, pois o ser humano, durante muito tempo, necessita de outros para conseguir alimentação e abrigo. E no mundo moderno, com a grande maioria das pessoas morando na cidade, com hábitos que tornam necessários muitos bens produzidos pela indústria, não há quem não necessite dos outros muitas vezes por dia.
            Mas as necessidades dos seres humanos não são apenas de ordem material, como os alimentos, a roupa, a moradia, os meios de transportes e os cuidados de saúde. Elas são também de ordem espiritual e psicológica. Toda pessoa humana necessita de afeto, precisa amar e sentir-se amada, quer sempre que alguém lhe dê atenção e que todos a respeitem. Além disso, todo ser humano tem suas crenças, tem sua fé em alguma coisa, que é a base de suas esperanças.
            Os seres humanos não vivem juntos, não vivem em sociedade, apenas porque escolhem esse modo de vida, mas porque a vida em sociedade é uma necessidade da natureza humana. Assim, por exemplo, se dependesse apenas da vontade, seria possível uma pessoa muito rica isolar-se em algum lugar, onde tivesse armazenado grande quantidade de alimentos. Mas essa pessoa estaria, em pouco tempo, sentindo falta de alguém com quem falar e trocar ideias, necessitada de dar e receber afeto. E muito provavelmente ficaria louca se continuasse sozinha por muito tempo.
            Mas, justamente porque vivendo em sociedade é que a pessoa humana pode satisfazer suas necessidades, é preciso que a sociedade seja organizada de tal modo que sirva, realmente, para esse fim. E não basta que a vida social permita apenas a satisfação de algumas necessidades da pessoa humana ou de todas as necessidades de apenas algumas pessoas. A sociedade organizada com justiça é aquela em que se procura fazer com que todas as pessoas possam satisfazer todas as suas necessidades, é aquela em que todos, desde o momento em que nascem, têm as mesmas oportunidades, aquela em que os benefícios e encargos são repartidos igualmente entre todos.
            Para que essa repartição se faça com justiça, é preciso que todos procurem conhecer seus direitos e exijam que eles sejam respeitados, como também devem conhecer e cumprir seus deveres e suas responsabilidades sociais.
(DALLARI, Dalmo de Abreu. Viver em sociedade. São Paulo: Moderna, 1985, pp. 5/6.)

Questões: (Concurso Auxiliar Judiciário – TJ/RJ – 2002)

1.   Segundo o primeiro parágrafo do texto:
a)      As pessoas se ajudam mutuamente a fim de formarem uma sociedade;
b)      A garantia da continuidade da vida é dada pela satisfação dos desejos das pessoas;
c)      A satisfação dos interesses e desejos das pessoas leva à vida em sociedade;
d)     Não seria possível a sobrevivência se não existisse sociedade;
e)      Sem ajuda mútua, as pessoas levariam uma vida isenta de desejos.

2.   No primeiro parágrafo do texto, se substituirmos a locução “a fim de que” por “a fim de”, a   forma verbal seguinte deveria ser:
a)      poderem garantir;
b)      poder garantirem;
c)      por garantir;
d)     poderem garantirem;
e)      possam garantirem.


3.   “... com hábitos que tornam necessários muitos bens produzidos pela indústria, ...”; o comentário adequado à estrutura desse seguimento do texto é:
a)      a forma “necessários” poderia ser substituída, de modo correto, por “necessário”;
b)      o pronome “que” refere-se a “hábitos” e é sujeito do verbo seguinte;
c)      “pela indústria” representa o paciente da ação verbal;
d)     o pronome indefinido “muitos” concorda com “produzidos”;
e)      o verbo “tornar” está no plural porque concorda com o sujeito “bens”.

4.   Algumas preposições são empregadas de forma obrigatória devido à presença de termos anteriores que as exigem; o item abaixo em que a preposição destacada está nesse caso é:
a)      um conjunto de pessoas;
b)      necessidade de se ajudarem;
c)      os meios de transportes;
d)     a base de suas esperanças;
e)      grande quantidade de alimentos.

5.   “...necessidade de se ajudarem umas às outras, ...”; o assento grave indicativo da crase, neste caso, é resultante da:
a)      presença simultânea de uma preposição e de um artigo definido feminino;
b)      necessidade de se indicar a presença de um complemento diferente do anterior;
c)      combinação de uma preposição com um pronome indefinido;
d)     contração de uma preposição com um pronome demonstrativo;
e)      obrigação de evitar-se a ambigüidade.

6.   Vocábulos que iniciam parágrafos como “mas” (3º §), “para que” (6º §) colaboram para que se mantenha no texto:
a)      a coerência argumentativa;
b)      a coesão formal;
c)      a argumentação lógica;
d)     a organização narrativa;
e)      a estruturação enunciativa.

7.   “... pois o ser humano, durante muito tempo, necessita de outros para conseguir alimentação e abrigo.”; a expressão “ durante muito tempo” se refere certamente ao período:
a)      da velhice;
b)      da gravidez;
c)      de doenças;
d)     da infância;
e)      do trabalho.

8.   “E no mundo moderno, com da grande maioria das pessoas morando na cidade, com hábitos que tornam necessários muitos bens produzidos pela indústria, não há quem não necessite dos outros, muitas vezes por dia.”; o item cuja substituição pelo termo proposto em maiúsculas é inadequada é:
a)      no mundo moderno = MODERNAMENTE;
b)      produzidos pela indústria = INDUSTRIALIZADOS;
c)      muitas vezes = FREQÜENTEMENTE;
d)     por dia = DIARIAMENTE;
e)      na cidade = URBANAMENTE.

9.   “Mas as necessidades dos seres humanos não são apenas de ordem material...”; a presença do seguimento “não são apenas de ordem material” indica que, na continuidade do texto, haverá:
a)      um termo de valor aditivo e pertencente a uma outra ordem;
b)      um termo de valor adversativo e pertencente a uma ordem diferente da citada;
c)      um termo de valor explicativo e pertencente à mesma ordem já referida;
d)     um termo de valor concessivo e pertencente a ordem diversa;
e)      um termo de valor conclusivo e pertencente à ordem citada anteriormente.

10. “Elas são também de ordem espiritual e psicológica.”; as palavras que exemplificam, respectivamente, na continuidade do texto as necessidades espiritual e psicológica são:
a)      afeto/atenção;
b)      crenças/afeto;
c)      fé/crenças;
d)     amar/ser amada;
e)      atenção/esperanças.

11. “...quer sempre que alguém lhe dê atenção e que todos a respeitem.”; transformando a última oração em forma nominal, temos como forma adequada:
a)      (quer) que seja respeitada por todos;
b)      (quer) que haja respeito por parte de todos;
c)      (quer) respeito de todos;
d)     (quer) que se respeite a todos;
e)      (quer) que todos sejam respeitados.

12. “os seres humanos não vivem juntos, não vivem em sociedade, apenas porque escolhem esse modo de vida, ...”; este seguimento do texto teria redação mais clara se:
a)      substituíssemos a primeira vírgula pela conjunção aditiva “e”;
b)      repetíssemos o sujeito na segunda oração;
c)      deslocássemos as ocorrências do advérbio “não” para antes de “apenas”;
d)     mudássemos a ordem das orações, de modo a colocar a última como a primeira;
e)      omitíssemos o substantivo “seres”.

13. “... a vida em sociedade é uma necessidade da natureza humana.”; reescrevendo-se este seguimento do texto com a manutenção de seu sentido original,  temos como forma adequada:
a)      a natureza humana necessita da vida em sociedade;
b)      a vida em sociedade necessita da natureza humana;
c)      a necessidade da natureza humana é uma vida em sociedade;
d)     uma necessidade da natureza humana é a vida em sociedade;
e)      a natureza humana é necessária à vida em sociedade.

14. “Mas essa pessoa estaria, em pouco tempo, sentido falta de companhia, ...”; o uso do futuro do pretérito, nesse seguimento, tem valor de:
a)      probabilidade;
b)      certeza;
c)      dúvida;
d)     conclusão;
e)      condição.

15.  “... sofrendo a tristeza da solidão,...”; isso significa que:
a)      a tristeza é semelhante à solidão;
b)      a solidão provoca tristeza;
c)      a tristeza leva à solidão;
d)     a solidão é fruto da tristeza;
e)      a tristeza causa solidão.

16. “... necessidade de DAR e RECEBER afeto.”; a estrutura de relação semântica entre os termos em maiúsculas se repete em:
a)      necessidade de COMPRAR e ALUGAR residências;
b)      necessidade de COMER e BEBER em horas certas;
c)      necessidade de ENTRAR e PARTIR freqüentemente;
d)     necessidade de VER e OUVIR bem;
e)      necessidade de ABRIR e CERRAR os olhos.

17. “... ficaria louca se continuasse sozinha.”; a relação entre essas duas orações mostra que:
a)      a segunda só se realiza se a primeira não realizar-se;
b)      a primeira se realiza contanto que a segunda não se realize;
c)      a segunda é conseqüência da primeira;
d)     a primeira é motivada pela segunda;
e)      a primeira é uma hipótese para a realização da segunda.

18. “E não basta que a vida social permita apenas a satisfação de algumas necessidades da pessoa humana ou de todas as necessidades de apenas algumas pessoas.”; com o seguimento sublinhado, o autor do texto:
a)      alude à discriminação racial;
b)      refere-se à falta de disciplina social;
c)      indica existência de desigualdades sociais;
d)     mostra a justa distribuição de renda no Brasil;
e)      critica a falta de preocupação com a solidariedade.

19.  “... todos procurem conhecer seus direitos e exijam que eles seja respeitados, ...”; se reescrevermos as orações sublinhadas, conservando-se as vozes verbais, teríamos como resposta adequada:
a)      todos procurem conhecer seus direitos e exijam serem respeitados;
b)      todos procurem conhecer seus direitos e exigir ser respeitados;
c)      todos procurem conhecer seus direitos e exijam respeitá-los;
d)     todos procurem que se conheçam os direitos e exijam que eles sejam respeitados;
e)      todos procurem que conheçam seus direitos e exijam que eles se respeitem.

20. “...têm as mesmas oportunidades, ...”; a forma verbal correta do verbo TER (ou de um verbo composto de TER) é:
a)      as pessoas sem entretém em sociedade;
b)      a liberdade não se mantém para sempre;
c)      todos se manterem de forma disciplinada;
d)     ele não se conteve de tão contente;
e)      ela se mantia afastada de todos.
CONCURSO PÚBLICO MINISTÉRIO PÚBLICO DA PARAÍBA CARGO: OFICIAL DE PROMOTORIA I, OFICIAL DE DILIGÊNCIA II,
AGENTE DE PROMOTORIA E OFICIAL DE PROMOTORIA II

CONHECIMENTOS BÁSICOS
Para responder às questões de 1 a 10, leia o texto abaixo.

A Solidão na Sociedade Global

No curso dos séculos vimos surgir diversos tipos de homem que, de algum modo, exprimiam os méritos, os valores e também as deficiências das sociedades por eles construídas. Atualmente, é educativo acompanhar o desenvolvimento da nossa espécie por meio de suas obras, atividades, realizações, pensamento, e de sua cultura.
A história nos mostra não apenas as capacidades morais e espirituais, mas também as habilidades práticas e a capacidade inventiva, que caracterizam as diversas civilizações que se desenvolveram no curso dos séculos e que ainda oferecem o próprio contributo no caminho do homem.
Diante dessa constatação me vem a pergunta: quais as qualidades do homem da sociedade global? Quais as suas características? Em que ele se destaca? Cada um de nós pode fazer uma relação dos dotes do cidadão global: é ativo, livre, veloz, explorador, conquistador. Apresenta-se como um vencedor.
Mesmo assim, a nossa sociedade tem todos os sintomas de um ser doente; cuja doença é, segundo especialistas, de difícil diagnóstico. Parece-me que um dos sintomas mais visíveis desse mal-estar seja a solidão na qual vive uma grande parte dos homens e das mulheres do nosso tempo.
Estamos falando de uma solidão negativa, fruto da ausência de relacionamentos verdadeiros, profundos, estáveis, com os companheiros de viagem; uma solidão que é fruto da indiferença participativa em relação à coisa  pública e ao bem comum, do fechamento no próprio eu individualista e, muitas vezes, egoísta.
A solidão do cidadão global cresce à proporção que a sua vida se dilata em uma rede cada vez mais ampla de conhecimentos e informações, de contatos virtuais, de peregrinações de massa aos novos santuários do bem-estar consumista, de aglomerados de multidões barulhentas nos espaços de diversões e de entretenimento. A concha do eu se torna cada vez mais apertada, impedindo a manifestação da sociabilidade e do reconhecimento do outro, que é uma verdadeira fonte de dignidade e liberdade.
O remédio para curar essa enfermidade deve ser tomado em doses continuadas, diárias para que o organismo espiritual se acostume de novo à mobilidade e ao interesse. Trata-se quase de um processo de reabilitação. O que significa, em pobres palavras, respeitar as diferenças para unir o corpo social, escrutar a face do outro com simpatia e não com desconfiança, abrir-se ao diálogo sincero sem fechamentos pré-fabricados e cuidar dos relacionamentos interpessoais e cultivar amizades duradouras. Em síntese: romper a solidão vivendo a comunidade. A nossa sociedade sairá dessa circunstância mais rica e menos conflituosa.
(ARAÚJO, Vera. Cidade Nova. Exemplar 488 – Ano XLVIII – nº. 11, nov. 2006, p. 25)2
1. Quanto à forma de composição, o texto se caracteriza predominantemente como:
a) Narrativo
b) Descritivo
c) Dissertativo-argumentativo
d) Narrativo-descritivo
e) Narrativo-argumentativo

2. O texto aborda um dos problemas da sociedade global – a solidão negativa, considerando-a um(a)

a) doença incurável, uma vez que não há perspectiva de reabilitação.
b) enfermidade que só deve ser tratada com orientação médica.
c) mal que acomete todas as pessoas no mundo globalizado.
d) fenômeno revelador do mal-estar que atormenta grande parte da sociedade atual.
e) desequilíbrio emocional visível em um número restrito de pessoas nos dias de hoje

3. De acordo com o texto, a globalização
a) é um fator responsável pelo fortalecimento dos relacionamentos interpessoais no mundo atual.
b) apresenta, também, conseqüências negativas, como o estímulo ao individualismo e ao egoísmo.
c) trouxe apenas benefícios para a sociedade, como o desenvolvimento da economia global.
d) é um processo capaz de transformar o homem, dotando-o de qualidades sempre positivas.
e) possibilita a solidariedade entre as pessoas, integrando-as numa rede cada vez mais ampla de conhecimentos.

4. Considere o fragmento a seguir:
“Parece-me que um dos sintomas mais visíveis desse mal-estar seja a solidão na qual vive grande parte dos homens e das mulheres do nosso tempo.”
De acordo com esse fragmento, pode-se afirmar:
I. A solidão é, sem dúvida, o sintoma mais determinante do mal-estar que atinge a sociedade global.
II. A solidão é um traço característico da nossa época.
III. Os homens e as mulheres no mundo atual são, em número bastante elevado, vítimas do mal da solidão.
Está(ão) correta(s) apenas:
a) I            b) II           c) III          d) I e II        e) II e III

5. Todos os fatores abaixo foram apontados pela autora como responsáveis pela solidão negativa, EXCETO:
a) Abandono das pessoas por parte dos familiares.
b) Atitudes egoístas.
c) Distanciamento das pessoas em relação às questões da comunidade.
d) Falta de relacionamentos mais duradouros entre as pessoas.
e) Comportamentos de natureza individualista.

6. Com base no texto, é correto afirmar que, para vencer a solidão negativa, o homem global precisa
a) ampliar a sua rede de informações e de conhecimentos.
b) estabelecer, cada vez mais, contatos virtuais.
c) frequentar, sempre que for possível, lugares em que se encontre um número elevado de pessoas.
d) estar sempre ligado à sua comunidade de forma participativa, sem preconceito e aberto ao diálogo.
e) fazer parte de grupos de pessoas que frequentam espaços sempre alegres.

7. Leia os fragmentos:
“Estamos falando de uma solidão negativa, fruto da ausência de relacionamentos verdadeiros, profundos, estáveis, com os companheiros de viagem ; [...]
“O que significa, em pobres palavras, respeitar as diferenças para unir o corpo social, [...]
Em relação ao uso dos elementos destacados, considere as afirmativas abaixo, identificando com V a(s)
verdadeira(s) e com F, a(s) falsa(s).

( ) A expressão “os companheiros de viagem” está empregada em sentido denotativo.
( ) O termo “pobres” pode ser substituído por “simples” ou “singelas”, sem alterar o sentido da frase.
( ) O termo “pobres” exemplifica o processo de conotação da linguagem.
( ) A expressão “os companheiros de viagem” refere-se àquelas pessoas que estão ao nosso redor.
A seqüência correta é:
a) V V F V        b) V V V V        c) F V V V         d) F V V F          e) F F V F

9. No fragmento “Cada um de nós pode fazer uma relação dos dotes do cidadão global: [...], substituindo-se a forma verbal destacada pela forma do pretérito perfeito do indicativo, tem-se:
a) podia    b) pôde c) pudera d) pudesse e) poderia

10. Leia o fragmento:
No curso dos séculos vimos surgir diversos tipos de homem que , de algum modo, exprimiam os méritos, os valores e também as deficiências das sociedades por eles construídas.”
A respeito dos elementos destacados nesse fragmento, é INCORRETO afirmar:

a) A expressão “No curso dos séculos” indica circunstância de tempo.
b) O termo “que” retoma a expressão anterior “diversos tipos de homem”.
c) As formas verbais “vimos” e “exprimiam” indicam ações já realizadas.
d) O termo “e” é uma conjunção de valor aditivo.
e) O termo “também” expressa idéia de exclusão.

O medo da solidão e do desamparo sempre foi maior do que a vontade – presente em todos nós – de viver de acordo com as nossas convicções. Isso, na prática, significa uma enorme tendência para a submissão aos regulamentos próprios de uma dada sociedade, coisa que até muito pouco tempo não era nem mesmo questionada e determinava uma brutal e ilógica tendência homogeinizadora dos modos de viver. Tendência ilógica porque nós somos criaturas essencialmente diferentes umas das outras, tanto na forma como pensamos sobre a vida como também quanto aos nossos gostos e preferências de todo tipo. Se somos todos diferentes (e isto me parece uma verdade indiscutível, visível mesmo a olho nu) não há porque tenhamos que nos casar, e numa determinada idade, não é obrigatório querer ter filhos (nem mesmo as mulheres, supostamente portadoras de um “instinto maternal), nada nos impediria de não termos ambições materiais e não querermos “subir na vida”, etc. (Flávio Gikovate, Novos Tempos, novas regras.)



Para responder às questões de números 1 a 4, considere o texto abaixo.

As sociedades modernas da Europa ocidental, ou dos continentes e espaços colonizados ou profundamente influenciados por ela, que hoje abrangem quase todo o globo terrestre, podem ser descritas sucintamente por alguns traços gerais: o Estado-nação, o capitalismo, a forma industrial de organização da produção; a convivência e sociabilidade urbanas; e os valores jurídicos constitucionais de liberdade e igualdade. Tais traços, por si sós, entretanto, não eliminaram seus contrários – solidariedades étnicas, formas pré-capitalistas de produção, a vida rural ou as hierarquias sociais. A novidade moderna consiste, antes, na rearticulação, em todos os planos, das formas e relações sociais antigas sob a égide desses novos traços.
Assim, no que diz respeito à organização social, as hierarquias, os privilégios, as deferências e os outros modos de expressão das desigualdades entre os seres humanos passaram, para serem aceitos, a depender de outras lógicas de construção e justificação. Tornaram-se, do mesmo modo, fontes permanentes de contestação, propiciadoras de lutas libertárias de emancipação e fermento de novas identidades sociais.
(Antonio Sérgio Alfredo Guimarães. “Desigualdade e diversidade: os sentidos contrários da ação”. In Agenda brasileira: temas de uma sociedade em mudança. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 168)

1. O autor, 
A) ao caracterizar as sociedades modernas, chama a atenção para o fato de que o perfil desenhado tem abrangência universal, dado o cenário globalizante da contemporaneidade.
(B) ao realizar a descrição das sociedades modernas, por meio de seus traços gerais, ordena-os de modo a expressar sucintamente o avanço de sua importância.
(C) na série anunciada pelos dois-pontos, elenca características exatamente proporcionais entre si, o que motiva a sequência delas sem a formação de qualquer tipo de subconjunto.
(D) ao mencionar Tais traços, faz o pronome retomar especificamente o segmento os valores jurídicos constitucionais de liberdade e igualdade, ainda que sob a expressão alguns traços gerais, usada antes, tenha acolhido mais itens.
(E) no terceiro período do primeiro parágrafo, com fundamentos manifestos, expressa um juízo que nega o caráter absoluto ou independente da descrição feita no período inicial.

2. É INCORRETO afirmar:
(A) a expressão no que diz respeito à organização social traduz, no contexto, uma circunstância, implicando um traço restritivo.
(B) a ideia de que hierarquias, privilégios e deferências expressam desigualdades entre os seres humanos está presente no texto, mas de modo subentendido.
(C) em sociedades modernas, europeias ou não, houve uma ampla reorganização da ordem social quando formas de ação conservadoras conseguiram se sobrepujar aos modernos modos de articulação social, forma de produção e valores jurídicos.
(D) em aparente contradição, em quase todo o mundo, as desigualdades entre os seres humanos são concomitantemente admitidas e rejeitadas, recusa esta que instiga alterações na organização social.
(E) compreende-se do texto que grupos humanos buscam legitimar as desigualdades entre os seus componentes encadeando-as coerentemente  nas convenções da sua peculiar organização social.


3. Afirma-se com correção:
(A) em ou dos continentes e espaços colonizados ou profundamente influenciados por ela (linhas 1 a 3), ambas as sequências introduzidas por ou conectam-se diretamente ao segmento As sociedades modernas.
(B) a expressão por si sós (linha 9) expressa, no contexto, uma causa.
(C) se antes (linha 12) for substituído por “sobretudo”, o sentido original se mantém.
(D) é admissível considerar que a frase iniciada por Assim (linha 15) denota uma ilação.
(E) a substituição de para serem aceitos (linha 18) por “à fim de serem aceitos” mantém a correção e o sentido originais.

4. A substituição que, acolhida pelo padrão culto escrito, mantém o sentido original do texto é a de
(A) As sociedades modernas da Europa ocidental [...] podem ser descritas (linhas 1 a 4) por "As sociedades modernas da Europa ocidental [...], pode-se descrevê-las".
(B) As sociedades modernas da Europa ocidental, ou dos continentes e espaços colonizados (linhas 1 e 2) por "As sociedades modernas, seja da Europa ocidental, seja dos continentes e espaços colonizados".
(C) entretanto (linha 9) por "nesse ínterim".
D) sob a égide desses novos traços (linha 14) por "sob a camuflagem desses novos traços".
E) as deferências (linha 16) por "as licenciosidades".

8 As ideias estão articuladas de modo claro e correto na seguinte frase:
(A) Mesmo sendo ele um hábil articulador e a despeito do grande prestígio de que gozava, não obteve êxito na transação, pois a verdadeira natureza do negócio lhe escapara.
(B) Dependendo a transação de um hábil articulador e que gozasse de grande prestígio, do mesmo modo ele não obteve êxito nisso: faltara-lhe a verdadeira
natureza do negócio.
(C) Ele não obteve êxito no processo na transação, ainda que sempre foi hábil articulador e apesar que gozava de grande prestígio, dado a verdadeira natureza do negócio, que tinha ficado obscuro para ele.
(D) Sendo ele um hábil articulador e gozando de grande prestígio não obteve êxito na transação, visto a verdadeira natureza do negócio ter escapado para ele.
(E) Não obstante o hábil articulador que era e do grande prestígio que sempre desfrutou não obteve êxito na transação, deixando de ter clara a verdadeira natureza
do negócio.

9.
A frase que está redigida em conformidade com o padrão culto escrito é:
(A) Em que pese sobre ele todas as denúncias, comprovadas ou não, insiste por permanecer no cargo, desafiando o senso comum de que deveria pedir demissão.
(B) Meritíssimo, baseado nos documentos que vão em anexo, solicito vossa interferência para que se apressem as providências legais sugeridas por seu assessor.
(C) Incipientes ou não nesse tipo de pesquisa, infringiram normas discutidas dias atrás, motivo pelo qual não lhes dei endosso, sabendo que a maior parte deles o deseja muito.
(D) Não sei das causas que lhes impediram de questionar o modo que foi discutido o dissídio, mas acho que os representantes da classe sabem o porquê disso.
(E) Não é estranho, a meu ver, essa postergação, principalmente se levar em conta a hesitação que manifestaram anteriormente sobre a data do encontro.

10.
A frase que está em conformidade com o padrão culto escrito é:
(A) Impingiu os filhos, sem grande discrição, convenhamos, a ideia de que a melhor solução seria encaminhá-los a um curso profissionalizante dali a dois semestres.
(B) Sabia que nada poderia sortir tanto efeito quanto a promessa de que, em sendo necessário, seria, e sem resquício de dúvida, o depositário da causa de seus concidadãos.
(C) Reteve os documentos para fazer a rescisão dos novos discidentes, mas não suspendeu os privilégios dos que lhe tinham prestado serviços até aquele momento.
(D) Ele é aquele a quem os astros nunca favoreceram, por isso diz que, se alguém lhe previr benesses de uma conjunção astral, reivindicará o direito de digladiar com ele.
(E) Fosse quais fossem as questões a serem debatidas, os funcionários cujos salários estavam atrasados combinaram não interpelar, mas também não transigir com a chefia.























































































































Discriminar ou discriminar?

Os dicionários não são úteis apenas para esclarecer o sentido de um vocábulo; ajudam, com frequência, a iluminar teses controvertidas e mesmo a incendiar debates. Vamos ao Dicionário Houaiss, ao verbete discriminar, e lá encontramos, entre outras, estas duas acepções: a) perceber diferenças; distinguir, discernir; b) tratar mal ou de modo injusto, desigual, um indivíduo ou grupo de indivíduos, em razão de alguma característica pessoal, cor da pele, classe social, convicções etc. Na primeira acepção, discriminar é dar atenção às diferenças, supõe um preciso discernimento; o termo transpira o sentido positivo de quem reconhece e considera o estatuto do que é diferente. Discriminar o certo do errado é o primeiro passo no caminho da ética. Já na segunda acepção, discriminar é deixar agir o preconceito, é disseminar o juízo preconcebido. Discriminar alguém: fazê-lo objeto de nossa intolerância.   Diz-se que tratar igualmente os desiguais é perpetuar a desigualdade. Nesse caso, deixar de discriminar (no sentido de discernir) é permitir que uma discriminação continue (no sentido  de preconceito). Estamos vivendo uma época em que a bandeira da discriminação se apresenta em seu sentido mais positivo: trata-se de aplicar políticas afirmativas para promover aqueles que vêm sofrendo discriminações históricas. Mas há, por outro lado, quem veja nessas propostas afirmativas a forma mais censurável de discriminação... É o caso das cotas especiais para vagas numa universidade ou numa empresa: é uma discriminação, cujo sentido positivo ou negativo depende da convicção de quem a avalia. As acepções são inconciliáveis, mas estão no mesmo verbete do dicionário e se mostram vivas na mesma sociedade. (Aníbal Lucchesi, inédito)

1. A afirmação de que os dicionários podem ajudar a incendiar debates confirma-se, no texto, pelo fato de que o verbete discriminar
(A) padece de um sentido vago e impreciso, gerando por isso inúmeras controvérsias entre os usuários.
(B) apresenta um sentido secundário, variante de seu sentido principal, que não é reconhecido por todos.
(C) abona tanto o sentido legítimo como o ilegítimo que se costuma atribuir a esse vocábulo.
(D) faz pensar nas dificuldades que existem quando se trata de determinar a origem de um vocábulo.
(E) desdobra-se em acepções contraditórias que correspondem a convicções incompatíveis.

2. Diz-se que tratar igualmente os desiguais é perpetuar a desigualdade.
Da afirmação acima é coerente deduzir esta outra:
(A) Os homens são desiguais porque foram tratados com o mesmo critério de igualdade.
(B) A igualdade só é alcançável se abolida a fixação de um mesmo critério para casos muito diferentes.
(C) Quando todos os desiguais são tratados desigualmente, a desigualdade definitiva torna-se aceitável.
(D) Uma forma de perpetuar a igualdade está em sempre tratar os iguais como se fossem desiguais.
(E) Critérios diferentes implicam desigualdades tais que os injustiçados são sempre os mesmos.

3. Considerando-se o contexto, traduz-se adequadamente o sentido de um segmento em:
(A) iluminar teses controvertidas (1o parágrafo) = amainar posições dubitativas.
(B) um preciso discernimento (2o parágrafo) = uma arraigada dissuasão.
(C) disseminar o juízo preconcebido (2o parágrafo) = dissuadir o julgamento predestinado.
(D) a forma mais censurável (3o parágrafo) = o modo mais repreensível.
(E) As acepções são inconciliáveis (3o parágrafo) = as versões são inatacáveis.

4. As normas de concordância verbal encontram-se plenamente observadas em:
(A) utilidade dos dicionários, mormente quando se trata de palavras polissêmicas, manifestam-se nas argumentações ideológicas.
(B) Não se notam, entre os preconceituosos, qualquer disposição para discutir o sentido de um juízo e as consequências de sua difusão.
(C) Não convém aos injustiçados reclamar por igualdade de tratamento quando esta pode levá-los a permanecer na situação de desigualdade.
(D) Como discernimento e preconceito são duas acepções de discriminação, hão que se esclarecer o sentido pretendido.
(E) Uma das maneiras mais odiosas de refutar os argumentos de alguém surgem na utilização de preconceitos já cristalizados.

5. Estamos vivendo uma época em que a bandeira da discriminação se apresenta em seu sentido mais positivo: trata-se de aplicar políticas afirmativas para promover aqueles que vêm sofrendo discriminações históricas. Mantém-se adequada correlação entre tempos e modos verbais com a substituição das formas sublinhadas no trecho acima, na ordem dada, por:

(A) Estávamos -apresentava -tratava-se -vinham
(B) Estaríamos -apresentara -tratava-se -viessem
(C) Estaremos -apresente -tratar-se-ia -venham
(D) Estávamos -apresentou -tratar-se-á -venham
(E) Estaremos -apresentara -tratava-se -viessem


6. É preciso reelaborar, para sanar falha estrutural, a redação da seguinte frase:
(A) O autor do texto chama a atenção para o fato de que o desejo de promover a igualdade corre o risco de obter um efeito contrário.
(B) Embora haja quem aposte no critério único de julgamento, para se promover a igualdade, visto que desconsideram o risco do contrário.
(C) Quem vê como justa a aplicação de um mesmo critério para julgar casos diferentes não crê que isso reafirme uma situação de injustiça.
(D) Muitas vezes é preciso corrigir certas distorções aplicando-se medidas que, à primeira vista, parecem em si mesmas distorcidas.
(E) Em nossa época, há desequilíbrios sociais tão graves que tornam necessários os desequilíbrios compensatórios de uma ação corretiva.

7. Está correto o emprego da expressão sublinhada em:
(A) Os dicionários são muito úteis, sobretudo para bem discriminarmos o sentido das palavras em cujas resida alguma ambiguidade.
(B) O texto faz menção ao famoso caso das cotas, pelas quais muitos se contrapuseram por considerá-las discriminatórias.
(C) Por ocasião da defesa de políticas afirmativas, com as quais tantos aderiram, instaurou-se um caloroso debate público.
(D) Um dicionário pode oferecer muitas surpresas, dessas em que não conta quem vê cada palavra como a expressão de um único sentido.
(E) Esclarece-nos o texto as acepções da palavra discriminação, pela qual se expressam ações inteiramente divergentes.

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